
A visualidade urbana é para Tchelo a matéria bruta que a arte investiga, analisa e processa por meio de diferentes abordagens - desde o desenho, uma escultura, a pintura, fotografia, vídeo, instalações e feitio de objetos. Estes meios desconstroem como significações intrínsecas e as vezes até banais atribuídas aos materiais presentes no cotidiano e - com uma radicalidade da não-figuração que remonta às matrizes minimalistas de Donald Judd e Frank Stella - o que é produzido em massa e o que há de industrial na realidade metropolitana, na arte de Tchelo, expressa tudo o que é capaz de expressar exatamente por aquilo que é - desprovido de apelos subjetivos e fetichismos consumeristas.
A atividade artística de Tchelo na sua amplitude e variedade mantem, vigorosa e coerentemente, uma tendência de desafiar como barreiras entre desenho, escultura e performance, entre as leis físicas que definem o ato da vida e aquele de fazer arte. Sua obra brota no mesmo instante em que contradição e ambiguidade se fundem para surpreender o espectador e gerar geração de 'ação-desenho', de 'performance inanimada' e de 'escultura-vivente'.
Deixando poucos vestígios de sua atuação inicial nas obras que ele produz, Tchelo permite a leis físicas tais quais aquela da combustão e a gravidade, e ao acaso, de decidir os elementos que compõem uma arte, os sinais que ela pode conter e sua interação com o mundo que rodeia o domínio estético. Posteriormente, os 'subprodutos' seguem nesse tipo de investigação, podem ser deliberadamente manipulados, reorganizados e desagregados com uma intenção de transgredir usos, quebrar normas, criar novas regras, assumir riscos entre caos e ordem ou inventar procedimentos numa prática artística formalmente simples, mas intelectualmente complexa. A estratégia é altamente bem sucedida, já que todas as obras de Tchelo falam coerentemente sobre ela, enfatizando-a e reforçando-a na construção de uma narrativa visual sóbria, limpa e altiva - aonde o artista renuncia à própria subjetividade para deixar a materialidade falar por si mesma.
A percepção porem não vem deixada para desta equação conceptualista, pois para Tchelo, até mesmo a mais minimalista das linhas e os mais sintéticos dos materiais são componentes constitutivos dos processos sensoriais com os quais percebemos e memorizamos forma e conteúdo. O viés filosófico atravessa a obra de Tchelo tanto quanto aquele psicológico-perceptivo, já que para o artista, na obra de arte, uma linha, ou seja, a mais simples das decisões estéticas, tem pancadas profundas: de fato, uma linha pode unir ou dividir, pode ser fronteira ou caminho, margem ou passagem, unidade ou sequência, desenho ou palavra, corpo, espaço ou tempo.
Por Kalinca Costa Söderlund