
A obra de Marcelo Amorim pode ser vista como uma revisitação e uma 'aclimatização' do trabalho de Gerard Richter, uns dos grandes mestres consagrados do modernismo - e, portanto, como uma versão brasileira da vertente do 'remodernismo' com a qual artistas globalizados estão atualizando o arquivo da história da arte do século 20. É possível notar fortes associados com a foto-pintura de Richter e seu projeto 'Atlas' na arte de Amorim, mas o artista brasileiro usa um processo semelhante àquele de pesquisa enciclopédica e taxionômica constante do mestre alemão para investigar seu próprio e específico interesse conceitual. Ou seja: Amorim - de maneira alinhada com a seleção de Richter para a produção de 'Atlas' - seleciona e acumula imagens provenientes da imprensa, recortes de jornais e livros, e outros semelhantes achados online para gerar uma iconografia das cortinas que moldaram historicamente a figura do homem branco, socialmente dominante e politicamente hegemônico.
Esta apropriação comemorativa é feita com o propósito de destacar que a hierarquia social que perpétua o poder nas mãos de grupos específicos está ligada a uma panóplia bem definida de comportamento, códigos morais e éticos e outras práticas de definição, imposição e sacralização da classe, raça e gênero dominantes na pirâmide político-cultural ocidental. Assim atuando, uma obra de Amorim investiga a construção, muitas vezes agressiva e invasiva, do tipo de identidade individual masculina destinada a liderar dentro das sociedades brancas e falocêntricas. Os temas das centrais do trabalho de Amorim são 1) guerra / educação militar; 2) educação física; 3) escola; 4) recreação; 5) convívio. E todos eles são incluídos com astúcia e espírito inquisitivo para destacar que a hegemonia é um modo de estruturação social, política e cultural no Ocidente.
Contextualizada no âmbito da arte altamente contracorrente e politizada do Brasil atual, uma obra de Amorim representa um contraponto original às práticas que exploram diretamente a condição das minorias sociais num país em que a recente radicalização para a direita resultou em novas ondas de racismo, homofobia e discriminação contra as mulheres. Ou seja, Amorim, em vez de explorar a dimensão dos dominados e como questões os direitos, como histórias culturais e a necessidade de emancipação das pessoas historicamente oprimidas, investiga - de forma ironicamente cáustica - a ideologia que forma a ética, o corpo e a visão dos dominantes.
O rigor conceitual da produção de Amorim é processado através de uma panóplia cromática e repertório visual que aproxima as obras à cultura popular, à cultura de rua e aos vários ramos do mundo das chamadas 'sub-culturas'. Esta inflexão estilística tem um inegável poder estético, mas ao mesmo tempo reitera os aspectos de resistência política intrínsecos à obra graças às suas referências explícitas a categorizações sociais como as cristalizadas nos termos 'classe trabalhadora' ou 'cultura LGBTQ'.
Amorim foi um dos artistas nomeados para o Prêmio PIPA de 2010. Em 2019 teve uma exposição individual no Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), e, a Zipper Galeria, que o representa no Brasil, deu-lhe uma exposição individual em 2016 Outros destaques no mundo das galerias foi seu individual 'Intervalo' na Jaqueline Martins em São Paulo e sua presença na coletiva da Luciana Caravello Arte Contemporânea no Rio de Janeiro (2014). Seu trabalho foi exposto na Casa do Brasil em Madrid (2018) e em Bruxelas (2017), assim como no Centro de Arte Contemporânea de Cincinnati (2017) e no Kunst im Kulturflur em Berlim (2011).
Por Kalinca Costa Söderlund