
O efêmero do dia a dia, os momentos fugazes e as vezes alienantes que o sistema socioeconômico em que vivemos, e que molda as realidades domesticas, urbanas e suburbanas ao qual pertencemos se tornam estórias complexas e ricas de significados e significações na pintura realista de Luiz Pasqualini. As obras do artista tornam o corriqueiro em um agente politizado; em um perene núcleo de conflito, questionamento e negociação da realidade política, ética e econômica brasileira.
O realismo social, historicamente, tem suas origens no século 19 na França, aonde artistas como Gustave Courbet se dedicaram a pintar somente o que eles viam e experenciavam, desprendidos de sentimentalismos e emoções. Esta estratégia simbolizava uma rejeição completa dos valores dos Românticos e das convenções acadêmicas no mundo da pintura. Pasqualini adere a este espírito de engajamento puro e simples com a realidade social assim como ela é, mas em pleno século 21, ele não renega a tradição pictórica e o legado dos grandes mestres das eras passadas; dos tesouros da produção acadêmica mundial.
Assim fazendo, o caráter mais interessante e único da produção de Pasqualini é a força do anacronismo como ímpeto da contemporaneidade. De fato, o artista funde - sem temores e com uma ironia sagaz - os logotipos e as peças de marcas glamorosas que os mass media hodiernos nos propõem como alicerces de um estilo de vida hedonista com as paletas e as representações formais do Barroco europeu. Pasqualini nos surpreende e impressiona quando o sujeito humano com a habilidade de um retratista arguto e refinado, referenciando-se claramente a Caravaggio, Rembrandt e Vermeer, e, ao mesmo tempo, lançando mão dos valores e aspirações humanas contemporâneas cristalizadas em um estojo da Chanel, em uma cueca da Calvin Klein, ou na cultura do selfie.
Pasqualini pinta a realidade contemporânea brasileira com uma densidade esmagadora e um espírito crítico direto e contundente. No glossário de sua iconografia estão presentes elementos diretamente relacionados com a noção de brasilidade, que simbolizam a nação, que são estereótipos de classe social e da compartimentalização ética e comportamental da sociedade resultante do capitalismo. Religião, consumismo, uma dimensão 'semiocapitalista' do século 21, a cultura de rua, aquela de massa, e até aquela tendenciosa e pretenciosa do sistema da arte são temas explorados por Pasqualini com um candor descomprometido e incidência na dimensão material da existência.
Por Kalinca Costa Söderlund