
A nível formal, a obra do artista brasileiro David Magila é marcada por um forte fundamento gráfico que as vezes se origina em um procedimento de decalque, via papel carbono, manifestado logo na instância inicial da pintura e notável apenas sob escrutínio aprofundado das telas. A nível poético, uma linguagem segue esquemas menos estruturados e remonta a memorias ofuscadas e quase vazias de um passado ainda presente; da obsoleta existência e mutável permanência de espaços urbanos e criados pelo homem em seu esforço constante de moldar seu habitat por meio da arquitetura e da construção - sejam elas utópicas ou distopias.
Espaços familiares a todos enquanto perambulamos pelas ruas, para dentro e para fora de prédios, em parques e em áreas de recreação e entretenimento mais ou menos urbanas em estados que, se não lições, estão relacionadas ao processo inexorável que leva a ruína, são os temas que Magila investiga com rigor inquisitivo. Os temas são certamente explorados por meio de paletas energéticas e policromáticas, e por uma panóplia de gradações vivas e dinâmicas, mesmo assim, nas pinturas de Magila transparece uma circunspecção reflexiva e as vezes melancólica - fato que a alma existencialista e sofisticação filosófica das perguntas que o trabalho do artista nos faz.
Neste sentido, é possível associar a obra do jovem artista contemporâneo àquela do fotografo e 'flâneur' Eugène Atget (1857-1927) que documentou, com o mesmo viés subjetivo e nostálgico, uma era da civilização Francesa nas ruas da velha Paris antes que seus testemunhos e vestígios arquitetônicos desaparecessem completamente sob o ímpeto da modernização. Enquanto Atget perambulava pelas ruas Parisienses por volta da virada do século 20 para imortalizar os triunfos arquitetônicos e os aspectos espectrais da sociedade capitalista antes do advento pleno do fenômeno da modernização urbana, Magila relata, nos álbores do século 21 e nas suas pinturas, como memórias póstumas do apogeu da modernidade arquitetônica no Brasil.
Magila tem como temática a cultura suburbana, de bairros e periferias nitidamente brasileiros e submete o foco de sua abordagem a um tratamento pictórico aonde a noção de escala e colorido passam por uma interpretação altamente classificação e incomum. Isto aparenta refletir o interesse de Magila no processo com o qual as pessoas moldam seus arredores, ea necessidade do artista de 're-presentar' o que ele vê nos seus passeios pelas ruas com um olhar de 'estranhamento e reconstrução'. Ao retornar ao ateliê esta necessidade é registrada no ato de pintar o que viu com 'olhar estrangeiro', e, portanto, em dimensões e núcleos que entregam às obras o poder impactante da surpresa e do fantasticamente improvável.
Por Kalinca Costa Söderlund